Há uma regra não escrita no cinema de ação: se o original foi contido, a sequência precisa ser explosiva. Mortal Kombat II (2026), dirigido novamente por Simon McQuoid, cumpre essa regra com juros abusivos.
Uma Sequência Que Troca Sutileza Por Espetáculo
Onde o filme de 2021 tentava construir um mundo e apresentar um padrão, este segundo capítulo joga o manual pela janela e entrega o que os fãs pediram: lutas, fatalities, personagens saindo do armário a cada cinco minutos e uma violência que faria até o netherrealm corar.
O resultado é um filme que não se leva a sério o suficiente para ser dramático, mas o bastante para ser uma paródia. Está num equilíbrio instável e fascinante – uma bagunça gloriosa que nunca, nem por um segundo, te deixará entediado.
O Enredo: Um Pretexto Para Combates
A história retoma meses após o torneio anterior. Cole Young (Lewis Tan) agora aceitou seu papel como elo entre os reinos, mas a paz dura o que dura um *round* de luta. Shao Kahn (Martyn Ford), imperador do Outworld, indignado com a derrota de Shang Tsung, decide invadir Earthrealm sem regras. A desculpa narrativa é frágil – um diálogo menciona “a antiga lei foi quebrada” e pronto – mas o filme nem tenta disfarçar. Este é um roteiro de corredor: entre uma luta e outra, os personagens correm de ponto A a ponto B para encontrar o próximo oponente.
A grande adição é Johnny Cage (Karl Urban), trazendo um alívio cômico ácido e referências a filmes de ação dos anos 80. Urban parece estar se divertindo mais do que qualquer outro no elenco, e suas interações com a séria Kitana (Adeline Rudolph) geram os melhores momentos de diálogo. O problema é que há *personagens demais*: Jade, Reptile, Baraka, Ermac, Noob Saibot – todos aparecem, lutam por dois minutos e desaparecem. Quem não conhece os jogos ficará perdido. Quem conhece, vai celebrar cada cameo como um torcedor vendo seu time fazer gol.
Ação Coreografada: Brutalidade Em Forma de Arte
Se o roteiro é o ponto fraco, a ação é o coração pulsante do filme. A equipe de dublês e coreógrafos (com experiência em filmes como John Wick 4 e The Raid) entrega combates que respeitam os movimentos icônicos do game. O spear do Scorpion, os chutes voadores de Liu Kang, os chapéus cortantes de Kung Lao, tudo está lá, reproduzido com fidelidade quase obsessiva.
O grande destaque técnico é a luta em um templo inundado entre Kitana e Jade. As duas atrizes treinaram artes marciais por seis meses, e isso aparece na tela: cada golpe tem impacto real, com pouca aceleração digital. A água espirrando, os reflexos das lâminas e a coreografia fluida criam uma das melhores sequências de luta feminina do cinema de ação recente.
Já a luta final entre Cole Young e Shao Kahn é um festival de CGI. O imperador, um misto de ator com captura de movimento e efeitos digitais, parece um *boss* de videogame – enorme, lento, mas com golpes devastadores. A batalha se arrasta por quase quinze minutos, alternando momentos empolgantes com outros em que a câmera treme demais para esconder falhas de coreografia.
Humor e Sangue: A Receita que (quase sempre) Funciona
O tom do filme é estranhamente deslocado. Em uma cena, Johnny Cage faz piada sobre sua própria morte iminente; na seguinte, um personagem tem a coluna arrancada em um *fatality* explícito. Essa oscilação entre comédia pastelão e horror sangrento pode incomodar quem busca consistência, mas para o público-alvo – jovens adultos que cresceram com os jogos – funciona como uma cápsula do tempo da franquia.
Os fatalities são mostrados sem cortes, em toda sua glória grotesca. Um deles, envolvendo o Reptile e um ácido que derrete o rosto de um inimigo, gerou desconforto real na sessão de imprensa. Outro, onde a Jade usa sua staff para decapitar três inimigos de uma só vez, foi ovacionado. É um filme que sabe exatamente para quem está falando.
O Veredito: Imperfeito, Mas Inesquecível
Mortal Kombat II não é um bom filme no sentido convencional – tem ritmo irregular, excesso de personagens, vilão subdesenvolvido e diálogos esquecíveis. Mas é um grande evento para os fãs. A sensação ao sair do cinema é de ter participado de um torneio: exausto, confuso, mas com um sorriso no rosto.
Via: Comingsoon.net


